Mais duas ou três coisas em que acredito

Postado originalmente no blo Periscópio, em 18 de março de 2008

O professor Ivalino, leitor deste blogue, comentou um dos textos sobre Educação afirmando que temos que mudar o modo como avaliamos nossos alunos.

Concordo, Iva. Temos que mudar mesmo. Estamos sendo condescendentes demais com a ignorância. Hoje em dia, muitíssimos alunos saem da escola quase tão despreparados quanto entraram.

Eu, que lecionava História e Geografia para 7ª e 8ª séries, tive que desistir de usar os textos dos livros didáticos em sala de aula, por um motivo estarrecedor: os alunos não entendem o que está escrito. Milhões de adolescentes brasileiros chegam ao final do Ensino Fundamental (muitos, do Médio) na condição de analfabetos funcionais, sem saber interpretar ou produzir um texto em nível de 4ª série. Portanto, decidi usar os livros apenas para mostrar as figuras e mapas. Nada de textos. Pra que saber ler, não é mesmo?

E o problema não é apenas nas Ciências Humanas. Na escola onde eu trabalhava, a professora de Matemática da 5ª série sempre passava o primeiro trimestre de cada ano sem poder dar matéria de 5ª série, porque nesse tempo ela ficava ensinando… tabuada! Isso mesmo: conteúdo de SEGUNDA série.

Se a escola decidisse aprovar em todas as séries apenas os alunos que APRENDERAM os conteúdos propostos, mais de 90% seriam reprovados.

Aqui, o Ivalino e outros críticos da escola “tradicional” (como eles dizem), questionarão a necessidade de se ensinar esses conteúdos ao invés de “preparar os alunos para a vida”.

Bem, devemos tomar as coisas como são, e não como deveriam ser. No mundo real, em que vivemos (pelo menos, em que quase todos vivem, com exceção de alguns antropólogos e pedagogos), nesse mundo concreto, a conquista de melhores condições de vida passa necessariamente por vestibulares, concursos públicos e processos seletivos diversos. Para conseguir um bom emprego ou até para escrever uma carta para a namorada, é preciso CONHECIMENTO. Preparar para a vida é ensinar o valor do estudo com afinco. É ensinar que o conhecimento genuíno só se constrói com leitura e reflexão. E com seriedade.

Mas, nestes tristes tempos de supervalorização das estatísticas, os órgãos governamentais não se preocupam com o aprendizado, e sim com o percentual de aprovados.

Viva a hipocrisia.

Comente

Os campos obrigatórios estão marcados *
*
*

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.