Postado originalmente no blog Periscópio, em 17 de março de 2008
Ontem, um cara veio me pedir dinheiro na rua.
Todo morador de cidade grande passa por situações semelhantes quase todos os dias. Via de regra, contamos aos pedintes sempre a mesma mentira: que não temos dinheiro.
Nos justificamos dizendo que não trabalhamos para sustentar o vício dos cachaceiros, que temos que “correr atrás” e ninguém nos ajuda, que dar esmolas apenas cria dependência e não resolve o problema.
Mas, então, o que resolve o problema, pelamordedeus?
Dar esmolas, realmente, não adianta. É como oferecer um band-aid a alguém que sofreu queimaduras de terceiro grau em 50% do corpo.
Dar trabalho é uma boa ação ao alcance de poucos. Você tem condições de empregar algum desvalido? Eu não tenho.
Exigir que o governo conceda Bolsas Famílias e outros que tais não me parece um bom negócio… soa como uma espécie de esmola institucional.
A melhor solução estaria naquela máxima evangélica: “Não dê o peixe; ensine a pescar”. Ou seja: ao invés da esmola que humilha, dar o emprego que dignifica. Mas será possível criar empregos artificialmente? O sacrossanto mercado tem espaço para todas as pessoas com idade para participar dele?
Teria, se fossem criadas condições para isso. Por exemplo, se o governo obrigasse TODAS as empresas manufatureiras a utilizar uma porcentagem X de matérias-primas recicladas… Imagine a quantidade de papéis, plásticos, metais e outros insumos que seriam reaproveitados. Imagine cooperativas municipais de reciclagem, tirando das ruas, dos aterros e dos riachos toneladas e toneladas de lixo para serem vendidas a compradores garantidos.
Quantos empregos isso geraria? Quanta economia para a indústria? Quantos anos de sobrevida a humanidade ganharia com tal faxina no meio ambiente?
Aqui, chegamos à fronteira entre o sonho e a realidade. Quem apresentará tal projeto de lei? Alguém aí é deputado ou senador? Eu não sou. Farei, então, o que está ao meu alcance: mandarei e-mails ao maior número possível de congressistas, na esperança de que um deles acredite nessa idéia.
Sei que isso parece demasiado utópico, mas é bem melhor do que simplesmente dizer aos pedintes que não tenho moedinhas e depois voltar para casa para dormir o sono dos justos.