Quão justa é a Justiça?

Publicado originalmente no blog Periscópio, em 7 de maio de 2008

Enquanto o país se pergunta se Ronaldo bateu ou não bateu uma bolinha com os travestis nas três horas e meia em que ficaram todos num quarto de motel (a última informação é de que elas desmentiram tudo), um caso muito mais grave teve uma reviravolta inesperada:

O fazendeiro Vitalmiro Moura, acusado de ser o mandante do assassinato da missionária americana Dorothy Stang, foi absolvido no seu segundo julgamento. No anterior, ele tinha não apenas sido considerado culpado, mas recebido a pena máxima: 30 anos de xilindró.

A pergunta que fica é: como pode a mesma pessoa receber num julgamento a pena máxima e em outro ser absolvida? Qual o critério utilizado pela Justiça para levar alguém do inferno ao céu ou vice-versa?

A resposta é assombrosa: as duas sentenças foram baseadas, ao que parece, apenas no testemunho de Rayfran das Neves Sales, o pistoleiro que confessou a autoria do crime. No primeiro julgamento, Rayfran declarou ter agido a mando de Vitalmiro; no segundo, negou tudo. O que o fez mudar de idéia entre um depoimento de outro? Em qual deles o jagunço disse a verdade?

Já que a Justiça errou neste caso (se no primeiro ou no segundo julgamento, não se sabe), quem garante que outras sentenças em que se confiou no depoimento de testemunhas também não foram tremendas injustiças? Quantos inocentes já foram condenados e quantos culpados já foram absolvidos sem que a verdade viesse à tona?

O Segredo de Leduíno

Publicado originalmente no blog Periscópio, em 1º de abril de 2008

Um dia, Leduíno viu a Luz.

De súbito, descobriu as respostas para todas as perguntas que já se fizera, isolou-se do mundo e, seis meses depois, lançou um livro entitulado “Manual da Fortuna”, que prometia ensinar tudo que é preciso saber para tornar-se um milionário.

A obra, é desnecessário frisar, vendeu como água no deserto. Leduíno tornou-se o Papa da Auto-ajuda. Participava de programas de TV e conferências de empresários, era fotografado ao lado de famosos, os ingressos para suas palestras se esgotavam em questão de horas.

Os que compravam seu livro e assistiam às suas palestras, entretanto, não enriqueciam. Um dia, durante uma sessão de autógrafos, um dos leitores ludibriados decidiu desmascarar Leduíno. Com um megafone em punho, começou a gritar em meio à multidão:

— Leduíno, seu charlatão! Você é uma fraude! Eu fiz tudo que você sugeriu e continuo pobre! O seu manual do enriquecimento não funciona!

O bom guru não se intimidou. Pegou o microfone e respondeu, incisivo:

— É claro que funciona, meu caro. Graças às vendas do livro, eu estou mais rico do que jamais sonhei estar.

Aquele barro na calçada

Publicado originalmente no blog Periscópio, em 20 de março de 2008

Hoje, quem passou pela Rua Luiz Afonso, que corta o bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, percebeu que num dado ponto da calçada havia uma grande quantidade de excremento humano (também conhecido como merda, em algumas regiões).

De onde teria vindo aquilo?

O editor deste blogue, na tentativa de encontrar uma explicação para o fato, ouviu diversas opiniões:

  • Sr. Laurêncio Blota Neto (morador da Cidade Baixa desde 1947): É uma pouca duma vergonha o que essa juventude está fazendo com o bairro. Aquela bosta na calçada é coisa dessa gurizada que vira a noite nesses bares, bebendo, fumando maconha e arrumando confusão. No meu tempo, não aconteciam essas coisas, os jovens sabiam respeitar o que é certo.
  • Pierre-Marie Loisignon (filósofo pós-moderno): A merda em questão é a expressão máxima da pluralidade transnacional e pós-tudo que chegou, finalmente, a Porto Alegre. Por muito tempo reprimida, a mérde está hoje livre para mostrar todo o seu potencial de produto cultural legítimo e representativo da peculiaridade singular e pulsante de quem a ajudou a vir-ao-mundo. A escolha pela calçada não é gratuita: é o lugar privilegiado para que o coproartista libere seus impulsos comunicativos e manifeste toda a sua revolta contra o que chamo, no meu último livro, de sociedade merdática.
  • Nelson Dutra Neves (empresário, neoliberal e filho de ex-torturador): Reclamam do tempo do governo militar, mas naquela época isso não acontecia. Se pegassem alguém fazendo isso, baixavam o pau e depois deixavam um bom tempo na cadeia. Bando de vagabundo que, além de não trabalhar, ainda fica incomodando as pessoas de bem.
  • Luís Fernando Villareal (líder estudantil, sustentado pelos pais): Acho que é um absurdo virem falar disso enquanto outras demandas sociais bem mais urgentes não ganham o devido espaço nesse blogue. Isso é um boicote da imprensa contra o que é realmente relevante pra sociedade como um todo. Cagou na calçada? Tem mais é que cagar mesmo! Pra ver se essa sociedade burguesa acorda e pára de viver no mundo da lua, como se a miséria não estivesse logo ao lado.
  • Maria Luísa Sampaio (representante da ONG Escola de Verdade): Vou repetir o que eu sempre digo, porque nunca me ouvem: a culpa é dos professores! Classezinha ordinária que não trabalha, não se atualiza, usa métodos retrógrados e não tem o mínimo comprometimento com as nossas crianças. Só falta agora virem dizer que foi um adolescente que fez isso e que a culpa é dele. Responsabilizo os professores, que não souberam tornar as aulas interessantes, que não souberam dar amor, que não souberam entender o aluno e prepará-lo pra vida. Basta!

Mais duas ou três coisas em que acredito

Postado originalmente no blo Periscópio, em 18 de março de 2008

O professor Ivalino, leitor deste blogue, comentou um dos textos sobre Educação afirmando que temos que mudar o modo como avaliamos nossos alunos.

Concordo, Iva. Temos que mudar mesmo. Estamos sendo condescendentes demais com a ignorância. Hoje em dia, muitíssimos alunos saem da escola quase tão despreparados quanto entraram.

Eu, que lecionava História e Geografia para 7ª e 8ª séries, tive que desistir de usar os textos dos livros didáticos em sala de aula, por um motivo estarrecedor: os alunos não entendem o que está escrito. Milhões de adolescentes brasileiros chegam ao final do Ensino Fundamental (muitos, do Médio) na condição de analfabetos funcionais, sem saber interpretar ou produzir um texto em nível de 4ª série. Portanto, decidi usar os livros apenas para mostrar as figuras e mapas. Nada de textos. Pra que saber ler, não é mesmo?

E o problema não é apenas nas Ciências Humanas. Na escola onde eu trabalhava, a professora de Matemática da 5ª série sempre passava o primeiro trimestre de cada ano sem poder dar matéria de 5ª série, porque nesse tempo ela ficava ensinando… tabuada! Isso mesmo: conteúdo de SEGUNDA série.

Se a escola decidisse aprovar em todas as séries apenas os alunos que APRENDERAM os conteúdos propostos, mais de 90% seriam reprovados.

Aqui, o Ivalino e outros críticos da escola “tradicional” (como eles dizem), questionarão a necessidade de se ensinar esses conteúdos ao invés de “preparar os alunos para a vida”.

Bem, devemos tomar as coisas como são, e não como deveriam ser. No mundo real, em que vivemos (pelo menos, em que quase todos vivem, com exceção de alguns antropólogos e pedagogos), nesse mundo concreto, a conquista de melhores condições de vida passa necessariamente por vestibulares, concursos públicos e processos seletivos diversos. Para conseguir um bom emprego ou até para escrever uma carta para a namorada, é preciso CONHECIMENTO. Preparar para a vida é ensinar o valor do estudo com afinco. É ensinar que o conhecimento genuíno só se constrói com leitura e reflexão. E com seriedade.

Mas, nestes tristes tempos de supervalorização das estatísticas, os órgãos governamentais não se preocupam com o aprendizado, e sim com o percentual de aprovados.

Viva a hipocrisia.

Da série “Idéias que poderiam mudar o mundo”

Postado originalmente no blog Periscópio, em 17 de março de 2008

Ontem, um cara veio me pedir dinheiro na rua.

Todo morador de cidade grande passa por situações semelhantes quase todos os dias. Via de regra, contamos aos pedintes sempre a mesma mentira: que não temos dinheiro.

Nos justificamos dizendo que não trabalhamos para sustentar o vício dos cachaceiros, que temos que “correr atrás” e ninguém nos ajuda, que dar esmolas apenas cria dependência e não resolve o problema.

Mas, então, o que resolve o problema, pelamordedeus?

Dar esmolas, realmente, não adianta. É como oferecer um band-aid a alguém que sofreu queimaduras de terceiro grau em 50% do corpo.

Dar trabalho é uma boa ação ao alcance de poucos. Você tem condições de empregar algum desvalido? Eu não tenho.

Exigir que o governo conceda Bolsas Famílias e outros que tais não me parece um bom negócio… soa como uma espécie de esmola institucional.

A melhor solução estaria naquela máxima evangélica: “Não dê o peixe; ensine a pescar”. Ou seja: ao invés da esmola que humilha, dar o emprego que dignifica. Mas será possível criar empregos artificialmente? O sacrossanto mercado tem espaço para todas as pessoas com idade para participar dele?

Teria, se fossem criadas condições para isso. Por exemplo, se o governo obrigasse TODAS as empresas manufatureiras a utilizar uma porcentagem X de matérias-primas recicladas… Imagine a quantidade de papéis, plásticos, metais e outros insumos que seriam reaproveitados. Imagine cooperativas municipais de reciclagem, tirando das ruas, dos aterros e dos riachos toneladas e toneladas de lixo para serem vendidas a compradores garantidos.

Quantos empregos isso geraria? Quanta economia para a indústria? Quantos anos de sobrevida a humanidade ganharia com tal faxina no meio ambiente?

Aqui, chegamos à fronteira entre o sonho e a realidade. Quem apresentará tal projeto de lei? Alguém aí é deputado ou senador? Eu não sou. Farei, então, o que está ao meu alcance: mandarei e-mails ao maior número possível de congressistas, na esperança de que um deles acredite nessa idéia.

Sei que isso parece demasiado utópico, mas é bem melhor do que simplesmente dizer aos pedintes que não tenho moedinhas e depois voltar para casa para dormir o sono dos justos.

Mais sobre o desmonte da escola pública

Publicado originalmente no blog Periscópio, em 15 de março de 2008

A prefeitura do município onde trabalho deixou bem claro que lá a Educação é uma questão de grana.

Ano passado, o então secretário de Educação (que também era e é vice-prefeito) exigiu que as escolas reduzissem o índice de reprovação, porque o fracasso escolar gera despesas para o município, que tem que dar escola por mais tempo aos repetentes. Isso mesmo. A justificativa não foi sequer a necessidade de melhoria do aprendizado, o compromisso com os alunos, etc. Assumiram, no maior caradurismo, que encaram a escola como um negócio COM fins lucrativos.

Obrigaram as escolas a aprovar alunos que precisavam de mais de 30 pontos em Matemática e/ou Português, e neste ano comemoraram a diminuição do número de alunos reprovados. Sim, uma piada. Todos sabem que a melhoria no índice foi obtida por canetaço, às custas da aprovação artificial de alunos sem as mínimas condições de avanço.

Calma, leitor. Tudo sempre piora.

Durante as últimas férias de verão, o prefeito baixou o seguinte decreto: escolas com menos de 300 alunos não terão mais secretário, bibliotecário, vice-direção, supervisão e poderão ter no máximo UM servente para cuidar da limpeza e merenda. A justificativa é que “em escolas pequenas esses profissionais não são necessários porque a direção e os professores podem dar conta do recado.”

A próxima medida talvez seja demitir todos os professores e entregar a Educação aos Amigos da Escola.

Caso de polícia é tratado como brincadeira de criança

Postado originalmente no blog Periscópio, em 14 de março de 2008

O que você faria se alguém ameaçasse matar você, e estivesse falando sério?

Nesta semana, um aluno da rede municipal de um certo município gaúcho (estudante que tem 16 anos e está no Ensino Fundamental, turma matinal) prometeu matar uma professora de Português. O que fez ela para merecer a morte? Exigiu que o aluno tivesse uma postura respeitosa e se empenhasse nos estudos.

O caso foi levado à Secretaria de Educação do referido município. Qual foi a orientação dada pela Intelligentsia educacional? Mandaram prender o quase- bandido? Encaminharam-no para o Conselho Tutelar? Prometeram transferi-lo para outra escola? Procuraram os seus pais ou responsáveis para informar que eles criaram um assassino?

Não.

Os sábios tecnocratas disseram que se deve resolver a questão tomando-se as seguintes medidas:

1) A professora deve chamar o assassino em potencial para uma conversa reservada.

2) Se isso não funcionar, a equipe diretiva da escola deve conversar com ele.

3) Se nem isso adiantar, o Conselho Escolar deve ter uma conversinha com o bom rapaz.

Nesse meio-tempo, ele terá todas as oportunidades do mundo para cumprir a promessa que fez.

Detalhe: na semana passada, um professor do mesmo município foi executado com cinco tiros quando chegava em casa. Há rumores de que os assassinos são dois de seus alunos do período noturno.

Em tempo: A Intelligentsia dessa secretaria de Educação encontrou uma maneira genial de resolver os problemas sociais do município. A partir de agora, os professores estão PROIBIDOS de dizer que os seus alunos vêm de famílias desestruturadas. A nova nomenclatura oficial é “famílias com cultura diferenciada”.

Por essas e por outras é que a Educação no Brasil está essa merda (com o perdão dos moralistas): ao invés de atacar os problemas de frente, inventam-se outros nomes para eles.

A sabedoria do Seu Pedro

Publicado originalmente no blog Periscópio, em 4 de março de 2008

É notícia a invasão (ou “ocupação”, dependendo de que lado do balcão você está) de uma fazenda da papeleira nórdica Stora Enso por movimentos de luta pela terra.

OK, todos os que já superaram a fase do comunismo ingênuo (etapa pela qual todo mundo passa, um pouco antes do fim da puberdade) concordam que a propriedade privada e o respeito aos contratos são condições fundamentais para que um Estado funcione por mais de 74 anos (tempo que durou a aventura soviética).

Mas há, nessa questão específica da fazenda da Stora Enso, um ponto que não costuma ser citado nos debates: as papeleiras estão enchendo o Rio Grande do Sul de eucalipto, com as bênçãos do governo.

Alguém já se perguntou seriamente qual é o impacto da introdução em larga escala dessas gigantescas árvores australianas em uma zona de pradarias?

O senhor Pedro Aldemiro, meu avô, um homem de 73 anos que não passou da segunda série do primário, acredita ter encontrado a resposta:

— Quando eu era novo, esses campos eram todos cheios de arroios, sangas e olhos-de-boi. Agora, tudo que é banhado tá secando. Isso é porque naquela época não tinha esse monte de eucalipto que tem agora. Vai chegar um ponto em que nós não vamos mais ter água.

Eu gosto de conversar com meu vô.

No bosque das professoras cacarejantes

Publicado originalmente no blog Periscópio, em 3 de março de 2008

Quem já participou de um seminário de Educação sabe que a única coisa mais desgastante que tentar falar para uma platéia de adolescentes é tentar falar para uma platéia de professores.

Elas (o percentual de mulheres é sempre de 95% , no mínimo) conversam, riem, falam ao celular, gritam, riem, conversam, gritam, riem mais, acenam, comem, gritam, levantam e saem, sentam de costas para o palestrante, gargalham, levantam para cumprimentar alguém, oferecem uma bolacha a uma colega que está sentada a cinco metros, compram e vendem produtos da Hermes e por aí vai.

São as mesmas pessoas que reclamam, cheias de razão, quando os seus alunos têm posturas semelhantes.

Detalhe: quando alguém lhes chama a atenção pelos maus modos, essas professoras justificam-se dizendo que o palestrante só estava falando abobrinhas. Não por coincidência, é quase a mesma desculpa dada pelos alunos.

O paraíso dos eufemismos

Publicado originalmente no blog Periscópio, em 2 de março de 2008

Vi hoje, na fachada de um puteiro de beira de estrada (oficialmente denominado “drink bar”), uma faixa que dizia:

PRECISA-SE DE GARÇONETES.

Garçonetes, veja só.

Bem, o que esperar de um país em que ladrão é chamado de “Vossa Excelência”?

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.